Técnicos do BC alegam que, no segundo trimestre, a inflação real foi praticamente idêntica à projeção implícita no relatório de março
O Banco Central acredita que a inflação do terceiro trimestre ficará abaixo do esperado. Além disso, aposta que o cenário externo, que piorou nas últimas semanas, terá um efeito desinflacionário sobre a economia brasileira.

As avaliações, colhidas pelo Valor em conversas com dirigentes da instituição, indicam que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) não elevará a taxa básica de juros (Selic) na próxima reunião, nos dias 31 de agosto e 1 de setembro. Se o cenário previsto se confirmar, é possível que a Selic, hoje em 10,75% ao ano, fique estacionada pelo menos até o fim do ano.
"Faltam 43 dias para terminar o trimestre, mas, considerando que em julho a inflação [medida pelo IPCA] foi zero e que em agosto tende a ser de 0,20%, segundo o consenso de mercado, e que esse consenso está apontando para algo em torno de 0,30%, 0,35% em setembro, grosso modo vamos ter 0,5% ou 0,6% de inflação no terceiro trimestre", explicou uma fonte do BC.

No Relatório de Inflação de março, o BC projetou, de forma implícita, variação de 1,01% para o IPCA no segundo trimestre, de 0,89% no terceiro e de 1,12% no último. O cálculo dessa projeção é feito por participantes do mercado a partir das informações contidas no documento oficial. O BC tem acesso aos números, mas não os divulga oficialmente.

Técnicos do BC alegam que, no segundo trimestre, a inflação real foi praticamente idêntica à projeção implícita no relatório de março. A novidade é a mudança de expectativa para o terceiro trimestre. "Uma diferença de até 0,4 ponto percentual é considerável", disse a fonte.

O BC sustenta que não está negligenciando o controle da inflação no curto prazo, como afirmam alguns analistas do mercado. Um dirigente lembra que, no ciclo de aperto monetário iniciado em setembro de 2004, o Copom levou 11 reuniões para elevar a Selic em 23% em relação ao nível em que se encontrava. No ciclo de 2008, foram quatro reuniões para aumentar 22%. No mais recente, iniciado em abril, a taxa também subiu 22%, mas em apenas três reuniões. "Foi um movimento forte. A inflação tende a continuar mais bem comportada do que estava no início do ano porque houve essa ação decisiva do BC", afirma um assessor.

No caso do panorama externo, a ata da reunião de junho do Copom falava na existência de um "cenário ambíguo", com 50% de chances de influir negativamente na inflação brasileira e 50%, positivamente. Na ata de julho, o tom mudou. Agora, o Banco Central acredita que a piora da situação econômica no exterior está tendo um efeito desinflacionário no Brasil.
 
Cristiano Romero, de Brasília
Valor Econômico

 


Inflação abaixo do previsto deve encerrar alta de juros